IDENTIDADES GREGAS NA ALEXANDRIA DO EGITO

 

Fernanda Lemos de Lima - UERJ

 

 

Hoje, Alexandria é de fato do Egito. Entretanto, na história da Antigüidade e, sobretudo, no imaginário da literatura, Alexandria do Egito é a cidade grega fora da Hélade, a cidade que guarda inúmeras identidades, etnias e saberes.

Mas que cidade é essa, que fascinou Durell, autor inglês do Quarteto de Alexandria, que transforma em personagem Kaváfis, o poeta dessa cidade, homem que vive a virada do século XIX para o XX? Que cidade é essa, com seu mundo governado pela dinastia dos Ptolomeus, dos últimos séculos da era pré-cristã, seu mundo internacionalizado, com colônias gregas, judaicas, francesas? É a cidade desejada, metrópole do mundo helenístico, que se mostra sedutoramente aberta a investidas de todas as etnias, desde que balizadas pela cultura grega, a mesma que a imaginou, a mesma que fez surgir Alexandre, conquistador de muitas terras e leitor de Homero. Esse macedônio, educado por Aristóteles, planejou a cidade grega no Egito, a sua Alexandria, a que viria a se tornar a mais conhecida das Alexandrias por ele fundadas ao longo de suas batalhas e conquistas. Uma cidade ideal, quase platônica por parecer uma idéia de perfeição extrema.

Alexandre não viveu para ver seu sonho realizado e poder dela desfrutar, todavia, um de seus generais, Ptolomeu, a quem coube o seu domínio após a morte do grande rei, fez dela o centro cultural que perderia sua autonomia apenas com a inevitável expansão romana. Antes disso, nos séculos III e II a.C., ela brilha como nenhuma outra, conquistando para a sua corte inúmeros poetas e estudiosos, construindo o Museu e sua Biblioteca, a famosa Biblioteca de Alexandria, marcas indeléveis de uma cidade que pretendia colecionar todo o acervo cultural da Grécia de outrora.

Nesse grande palco encontramos Calímaco de Cirene e, séculos mais tarde, numa Alexandria já decadente, encontraremos Konstantinos Kaváfis. Dois poetas, dois indivíduos em tempos diferentes, mas que partilham uma identidade grega.

Calímaco, o autor das Pínakes, as listas que determinaram o acervo literário guardado na Biblioteca de Alexandria, é um poeta que preza a erudição. Mais que isso, sua poesia é pensada enquanto uma nova proposta estética, consciente da grandeza das obras escritas nos períodos arcaico e clássico, ou seja, tudo que foi produzido em “solo grego” antes de 323 a.C., data da morte de Alexandre Magno e marco da expansão da língua grega como língua de cultura para o Oriente. Não se tem apenas o cidadão reconhecidamente grego escrevendo; tem-se um mundo helenizado em que autores das mais diversas origens optam por criar a sua literatura em língua grega, identificando nela a língua do estudo e da arte. A língua, marca da identidade, já não pertence só ao grego, mas ao sírio, ao judeu. Isto em termos de cultura, porque, em termos de comércio, o grego comum passa a ser a língua internacional, que figurará, no caso do Egito, em primeiro lugar numa tabela de alfândega oficial do Império Romano, restando ao latim apenas a terceira posição, antecedido por um texto com a língua local.

Nessa metrópole habitada por tantos povos diferentes, vive Calímaco, a passear pelo seu labirinto – sua biblioteca –, catalogando e tirando desse acervo temas, mitos, palavras, fatias da cultura grega de antes de Alexandre, dados que serão combinados de maneira nova, visando à criação de um novo tipo de literatura, que alia saber a arte, num exercício de fina carpintaria literária, num modo peculiar de conceber a arquitetura da palavra.

Tal atitude estética tem de partir de Calímaco – o leitor – não apenas por ter-se enchido de informações multiformes, mas por ter a consciência do significado estético de todo um conjunto de obras produzido pelo passado literário, passado por ele catalogado, pelo qual transita, o qual comenta e que se torna inevitável parâmetro. Ele sabe que seu tempo é outro, tem consciência de sua posição e opta por encadear um movimento poético diferente. Vai em busca da diferença, diferença que será baseada na vantagem da leitura, na erudição que abre horizontes de sons, de culturas, de combinações.

 

Detesto o poema cíclico, não gosto do caminho

que muitos conduz;

odeio também o amante inconstante, tampouco de fonte

bebo; tenho aversão a tudo que é comum.

Lisânias, tu certamente és belo – mas antes deste eco

claramente falar, diz alguém: “outro o tem.” [1]

 

Este epigrama ilustra a preferência do eu lírico de Calímaco, um poeta que prefere o não tocado, o particular, aquilo que seja unicamente seu. Lisânias, homem considerado belo, corre o risco de não ser buscado pelo eu lírico por ser de outro: quer-se a exclusividade inclusive na realização do desejo homoerótico. Temos aqui um detalhe que me faz pensar em como essa exclusividade, essa busca de um novo particular pode refletir um desejo de poder, seja na poesia, seja no amor.

         Infelizmente, não há lugar, aqui, para uma reflexão mais profunda sobre esse tema, entretanto, gostaria de ressaltar que, quando falamos de Calímaco ou Kaváfis, falamos de universos de dominação masculina, de desejo masculino.

         Um novo tipo de homem surge em Alexandria: o homem de letras, aquele que vive da produção e conservação do saber. Se, em tempos anteriores, o poeta era o profissional da palavra, que recebia por suas composições, como Píndaro, que compunha para um grande público, na cidade dos Ptolomeus eles ganharão a vida na corte cuidando do saber que chega à cidade, copiando toda e qualquer obra literária que a ela aporte, educando os herdeiros do trono e os nobres, e, sobretudo, produzindo uma arte e um saber característicos de Alexandria. Isto porque os poetas que vivem lá, embora às vezes façam textos em homenagem aos Lagidas, na maior parte do tempo escrevem para os seus pares, para aqueles que percebem num epigrama de Calímaco, que apresenta duas pequenas linhas, muito mais que um epitáfio de uma criança de 12 anos, mas todo o investimento afetivo efetivamente perdido diante do imponderável que é a morte:

 

Dwdeketh ton paida  pathr apeqhke FilipoV

        enqade thn pollhn elpida Nikotelhn.[2]

 

De doze anos, o filho, o pai, Filipe, enterrou

     aqui, toda esperança, Nicotéles.[3]

 

A cesura, que divide o verso, separa o filho de seu pai, como a morte os separou. Isso perceberiam aqueles menos cuidadosos apenas pelo ritmo dos versos. Entretanto, o leitor previsto por Calímaco, não aquele que ficará apenas na superfície dos versos, mas aquele que terá prazer na arqueologia das palavras, sempre reveladora em se tratando de literatura e, especialmente, em se tratando da poesia de Alexandria. Os pares do poeta perceberão quão perfeita foi a escolha do nome da criança e, sobretudo, de seu posicionamento no fim do último verso: o nome do menino morto traz a raiz de niké (vitória) junto com a de télos (fim): aquele que teria como meta de vida a vitória é, na verdade, o fim das esperanças de vitória que seu pai por ele sonhara.

Desse diálogo entre pares, vai crescendo a literatura de Alexandria, tão inegavelmente grega que esquecemos que ela faz parte do Egito, tão multirracialmente habitada, que esquecemos que muitos de seus soldados são mercenários gauleses, seus comerciantes, turcos, sírios e judeus, todos vivendo a cultura de uma Alexandria sem fronteiras, que vive o sonho de uma universalidade grega.

E vieram os romanos e impuseram seu império. A biblioteca foi destruída por um incêndio, os estudiosos que restaram depois do reinado de Ptolomeu Euergetes, um tempo de perseguição ao saber, foram para outras terras do Império. Entretanto, não esquecemos o farol de Alexandria, luz que parecia iluminar com um fogo helênico o Oriente, luz que se impôs ao domínio de Roma. A língua grega, no do período imperial romano, é lingua internacional e de cultura. Vários romances são escritos em grego nessa época, temos Plutarco, com as Vidas paralelas, Luciano e sua vastíssima obra e tantos outros autores e tantas obras preservadas e facilitadas pelas regras de pontuação e acentuação que os logógrafos de Alexandria nos deixaram.

E Alexandria, com o advento do cristianismo, também se tornou cristã, ortodoxa, continuando grega. A identidade, que se modificou, permanece, embora haja um gosto de passado no ar, sensação que irá tocar o poeta da modernidade, o poeta que reverencia Baudelaire, o mitólogo da cidade moderna. Para o jovem Konstantinos Kaváfis o mitólogo se converte em mito, exemplo a ser seguido, poeta a ser celebrado, a receber uma “aleluia”, tão ingênua, mas tão reveladora das tendências que nortearão a identidade poética de Kavafis: grego, cristão ortodoxo, educado em língua inglesa, “nobre” falido, funcionário público, filho temente à mãe, homosexual discreto, poeta recatado.

Em suas poesias, muitas de temas históricos, a Alexandria moderna, aberta a investimentos europeus e, por isso mesmo, novamente, com um ar de multiplicidade cultural, sem, entretanto apresentar o brilho de outrora, é observada pelo seu poeta, aquele que registra os intantes efêmeros, tornando-os eternamente passageiros, aquele que percebe na Alexandria de seu tempo, na vida de seu hoje, ecos de acontecimentos passados que se repetem, que são revivenciados.

 

Glória dos Ptolomeus

 

Sou o Lágida, rei. O senhor, absolutamente,

(com minha força e minha riqueza) do prazer.

Nem macedônio nem bárbaro jamais se há de ver

igual ou comparável a mim. Faz rir à gente

o Selêucida com sua volúpia tão rasteira.

Mas se de outras perguntardes, eis a verdade inteira.

A cidade que é mestra, a pan-helênica cimeira,

em qualquer arte ou ciência a mais sábia, a primeira.[4]

 

Neste poema, cuja voz é a de um dos Ptolomeus, vemos a exaltação à condição de rei, de detentor de um poder e de um prazer inigualável. Além, é claro, da exaltação à “pan-helênica cimeira”, à cidade de Alexandria, que também, no tempo de Kaváfis, será um lugar de volúpia, mas de uma volúpia proibida, arriscada e, talvez, por isso mesmo, mais excitante. A volúpia de que falo é proxima do desejo de que vimos em Calímaco. Se no poeta da Alexandria do passado o desejo por outros homens era algo pouco ou nada reprovável, na cidade/ruína de Kaváfis, o desejo será o proibido, a volúpia será encontrada em quartos sórdidos, mas, mesmo assim, será a volúpia.

E, novamente, deparo-me com a questão do masculino, do desejo homoerótico. Algo que, cada vez mais se torna evidente e urgente para uma melhor interpretação dos dois poetas. Todavia, como já disse, não é ainda este o espaço para o aprofundamento da discussão.

A literatura da Grécia clássica está presente na poesia kavafiana, entretanto não de maneira ufanista, como acontece aos poetas contemporâneos que vivem de fato em solo grego. Kavafis não vive o momento da independência grega do jugo turco, ele vive num mundo à parte, numa cidade que foi grega e que vai sendo aos poucos reconquistada pelos Egipícios. Ele vive esse momento crepuscular da Alexandria grega, a cidade fez a sua identidade, também crepuscular.

 

A cidade

 

Disseste: “Partirei para outra terra, partirei para outro mar.

Uma outra cidade melhor do que esta hei de encontrar.

A cada tentativa, uma condenação escrita está.

E está – como morto – enterrado o meu coração.

Até quando a minha mente ficará nesta estagnação?

Para onde quer que eu fite, para onde quer que eu estenda o meu olhar

Ruínas negras de minha vida estou a contemplar,

Aqui, onde tanto tempo passei, onde o tempo passei a dissipar.”

 

Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros mares

A cidade te seguirá. Voltarás a vagar pelas mesmas ruas

E nos mesmos bairros hás de envelhecer

E nessas mesmas casas teus cabelos vão embranquecer.

Sempre chegarás a esta cidade. Para outro lugar – não tenhas esperanças –

Não há barco para ti, não há caminho.

Assim como aqui a tua vida arruinaste,

Neste cantinho, em toda a terra a dissipaste.[5]

 

A cidade segue o seu cidadão, a cidade molda o destino do seu cidadão, a cidade e o homem dessa cidade moderna são existências imiscuídas uma na outra. As ruínas são carregadas por aquele que tenta em vão fugir a elas, buscando o novo. Não há lugar para o novo, para o que esteja surgindo. Da mesma maneira que a cidade vai se consumindo no tempo, o homem que a cidade produziu irá, necessariamente, dissipar-se.

Todavia, não é só a decadência que constrói a poesia kavafiana, mas muito de volúpia, de desejo, de olhares trocados, de consciência do excitante proibido, de sensações que deixam marcas na memória do corpo.

 

Lembra, corpo...

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,

não só os leitos onde repousaste,

mas também os desejos que brilham

por ti em outros olhos, claramente,

e que tornaram a voz trêmula – e que algum

obstáculo casual fez malograr.

Agora que isso tudo perdeu-se no passado,

é quase como se a tais desejos

te entregaras – e como brilhavam,

lembra, nos olhos que te olhavam,

e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.[6]

 

O corpo lembra, revive as sensações, num rememorar que faz aflorar toda a pulsação do desejo que foi satisfeito, que fica. Um desejo que se lê nos olhos do outro, um desejo que brilhava no outro, fazendo do corpo o centro das atenções. O corpo é o protagonista da encenação do prazer, na memória da pele fica a lembrança de tempos de juventude, quando aquele corpo ainda despertava desejo.

A memória, individual ou coletiva tem papel relevante nos poemas de Caváfis. Seja a memória do corpo, seja a memória da literatura homérica, seja ainda a memória das formas dos epigramas de Calímaco, elas deixam marcas em sua poesia. Poesia produzida por alguém que, como Kaváfis, tem consciência do tempo em que vive, que busca construir uma obra literária especial e, por isso mesmo, apurada e pequena. O poeta não publica seus textos, parece ter pudor de exibi-los ao grande público. Apenas um pequeno círculo de amizades compartilha as suas palavras em movimento poético, outros pares, para quem escreve, leitores previstos e desejados, como os de Calímaco. Leitores que conhecem os mundos desses dois poetas, mundos diversos no tempo, iguais no espaço e em seu objeto masculino, paradoxalmente, formando uma mesma e diferente identidade grega na Alexandria do Egito.



[1] Tradução minha.

[2] Epigrama XIX, In: Callimaque. Paris: Belles Lettres, 1972, p. 121.

[3] Tradução minha.

[4] KAVAFIS, Konstantinos. poemas (trad. José Paulo Paes). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p.117.

[5] Tradução minha.

[6] In: KAVAFIS opus cit.,p. 144.